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Gentrificação, desvalorização e a necessidade evidente de se ouvir as pessoas

Engajar a população nos projetos é muito mais do que apenas informá-la. (Foto: Paula Tanscheit/WRI Brasil)

Algo discutido, certamente não suficientemente, tanto no ambiente acadêmico quanto no mercado, em maior ou menor medida é a necessidade de se ouvir as pessoas, sempre, em todos os processos. No planejamento urbano isso não é diferente. As pessoas são o centro da discussão de vários autores, dos contemporâneos e diretamente envolvidos com o assunto, como Fred Kent e Jan Gehl, até o incomparável Shakespeare.

“O que é a cidade senão as pessoas” dizia Sicinius, no ato 3, cena 1 de Coriolanus.

De uma forma bastante simplificada, podemos dizer que ninguém sabe melhor o que quer para sua vida do que os próprios envolvidos, nesse caso, a comunidade.

Pouco provavelmente algum urbanista vai conseguir decidir sozinho, ou mesmo em grupo, no conforto do escritório, vários quilômetros distante, o que é melhor para as pessoas que moram/usam/visitam o lugar em questão. Nassim Taleb diz algo que faz toda a diferença, o “skin in the game”, ou seja, em tradução para o português da rua, numa comparação com o inglês do Brooklyn que Taleb tanto gosta, é preciso estar com “o seu na reta”, ou seja, é preciso ter algo a perder para que exista um mínimo de compromisso.

As pessoas do lugar tem tudo a perder, diferente dos profissionais que, mesmo fazendo “vivências” no local, vão embora após o projeto. Portanto, é possível dizer que a comunidade é a maior interessada, algo que parece não ter a menor importância para os desenvolvedores de projetos urbanos. Nesse momento, podemos colocar no mesmo balaio tanto poder público quanto iniciativa privada, o método é recorrente, independente do lado.

Recentemente, dois casos completamente diferentes e distantes vieram à tona: o Google Campus, em Berlim, e o PIU (Projeto de Intervenção Urbana) Vila Leopoldina-Villa Lobos, em São Paulo. Em ambos os casos, ninguém lembrou do velho dramaturgo inglês.

Berlim x Google

Pense no cenário mais vibrante de baladas de música eletrônica e do movimento de startups, assim como o atual berçário das tendências mais contemporâneas e você inevitavelmente pensará em Berlim.

O terror da Segunda Guerra Mundial que chocou o mundo e dividiu a capital alemã em dois, teve um efeito colateral no traçado urbano da cidade, espaços vazios surgiram na Berlim pós-muro, para a ocupação e, claro, para a ressignificação não só desses, mas de todos os lugares da capital alemã. Kreuzberg é um desses bairros. Antes um distrito pobre da Berlim Ocidental reduto da população turca, após a reunificação tornou-se famoso por sua vida noturna e criativa com a mudança de várias startups para o bairro, o que impactou no acréscimo de 69% nos aluguéis nos últimos 13 anos. Agora, os moradores acreditam que o Google Campus, planejado para o Umspannwerk (antiga usina de energia), pode aumentar ainda mais o processo de transformação do lugar, ou de gentrificação.

Gentrificação é a dinâmica que muda o perfil do lugar, empurrado por novos usos, que atraem novos moradores e acabam por expulsar os antigos moradores.

A tarefa de convencimento do gigante da tecnologia não será fácil. De ações como o “Anti-Google Café”, da livraria local Kalabal! K, ao jornal chamado Shitstorm: Against Google, Displacement e Tech Dominance, a resistência luta contra a implementação do projeto. Um porta-voz do Google em Berlim disse que a empresa conversou com moradores sobre suas preocupações e está incorporando o feedback deles em seus planos. “Nós vivemos em Berlim, entendemos as preocupações dos vizinhos em relação à gentrificação e sabemos como Kreuzberg vem se desenvolvendo nos últimos anos”.

Essa resposta do Google fala muito sobre seu mindset colonizador, segundo alguns dos movimentos ativistas. Mais uma vez, pareceu mais fácil perguntar depois do projeto do que antes, o que pode custar caro para a empresa.

Por mais que o prefeito Michel Müller tenha dito que “Hoje é um bom dia para Berlim” após o anúncio do projeto, mesmo compreendendo o impacto positivo que a empreitada teria sobre a cidade, a questão recai sobre quem se beneficiará com o projeto. Afinal, segundo os ativistas, os beneficiados diretos, o ecossistema de startups, são as pessoas que, se as coisas complicarem, poderão se mudar automaticamente para outro grande centro europeu, até porque, muitas vezes, não são alemães.

O que fica evidente nesse episódio é, por um lado, uma certa arrogância recorrente às marcas poderosas, cujo resultado foi não entender o impacto que suas ações causariam nos moradores do lugar. Na verdade, fica clara a dificuldade de compreender a dimensão e o conceito de lugar, ligado a características simbólicas e não a características físicas.

A inclusão do “feedback” após a revolta dos moradores, segundo o porta voz da marca, mostra que nenhuma conversa anterior foi feita, ou pelo menos não com os principais impactados. Provavelmente, o Google jamais imaginara que sua atitude fosse rejeitada por boa parte da população, ou pelo menos pela parte mais engajada.

A comunidade é a maior interessada e, por isso, a principal parte a ser ouvida. (Foto: Daniel Hunter/WRI Brasil)

Vila Leopoldina – Villa Lobos

Não é só em Berlim que se esquece das pessoas, claro. Nós temos nossa própria parcela de projetos “top-down”. O exemplo mais recente é o PIU Vila Leopoldina – Villa Lobos, ou PIU VL-VL. Segundo a Votorantim, uma das empresas proponentes do projeto, “o PIU é um instrumento previsto no Plano Diretor da cidade, que permite que empresas privadas proponham intervenções para melhoria do espaço urbano e que sejam de interesse público. O PIU Vila Leopoldina propõe-se a revitalizar um perímetro junto à Marginal Pinheiros, próximo à Ponte do Jaguaré, oferecendo como contrapartida um investimento privado estimado em R$ 80 milhões na reurbanização da área, incluindo a construção de moradias para as mais de 700 famílias que atualmente vivem em comunidades da região. Ao menos 4,5 mil pessoas em situação vulnerável serão beneficiadas diretamente pelo projeto”.

Na área do projeto serão construídos prédios comerciais e residenciais, boulevares e novas avenidas, com a inclusão de 250 famílias alocadas em Habitações de Interesse Social. As outras 526 irão para o terreno da SPTrans na Avenida Imperatriz Leopoldina.

Os projetos de caráter público são submetidos a audiências como parte do rito de aprovação. Na audiência, os moradores do condomínio reclamaram da possível desvalorização de seus imóveis com a presença da nova vizinhança, e sugeriram a transformação do local em parque, enquanto os moradores das comunidades locais criticavam a Associação que representa os moradores dos condomínios por nunca ter perguntado o que eles precisavam. Além da preocupação com a realocação dos empreendimentos comerciais das comunidades, longe da rede de suporte, que nesse caso se traduz na clientela. Ou seja, cada um defendendo seus próprios interesses.

Informar e engajar

O que os dois exemplos, muito distantes entre si, com características culturais completamente distintas nos mostra é que, mais do que informar, é preciso engajar. Uma confusão comum mundo afora é imaginar que informar é a mesma coisa que engajar ou, ainda, que a simples informação é capaz de criar o complexo senso de pertencimento. O  International Association for Public Participation (IAP2) tem uma ferramenta clara que explica a diferença, chamada de Espectro da participação pública. Nesse espectro começamos com a informação, depois a consulta, envolvimento, colaboração e depois empoderamento.

De uma forma mais clara, podemos dizer que existe dois tipos de processo mais comuns: aquele claramente top-down, onde não se pretende nenhum tipo de relação com a comunidade, no melhor estilo “Nós sabemos o que é melhor para vocês”. Depois temos o modelo onde se faz o que “se quer” e depois submete-se a uma audiência pública, com ferramentas de interface precárias, e com nenhuma disposição para ouvir opiniões contrárias, que na verdade não passa de um “Nós sabemos o que é melhor para vocês” disfarçado de participação. Uma ideia compartilhada internacionalmente é que um cidadão só se sente engajado quando tem a certeza de que sua ideia, mesmo não escolhida, será levada em conta. Qualquer coisa diferente disso é tudo, menos colaboração.

Engajar a comunidade é uma mudança de mindset. É preciso despir-se do ego, da vaidade. Esse novo mindset, compreende que o conhecimento é coletivo, compartilhado, construído mais das diferenças do que das semelhanças.

Começa-se com uma visão, que lugar queremos. Essa visão, compartilhada e cocriada, deve ser alimentada por diferentes plataformas, digitais e físicas, compreensíveis para a população. Afinal, deseja-se de fato saber o que as pessoas pensam. Essa visão compartilhada é feita antes de qualquer masterplan ou projeto, ela é o argumento inicial, resultado da investigação dos panoramas afetivos e simbólicos do lugar. Ou seja, ao invés de planilhas, teremos elementos representativos de caráter humano, de números para ideias, ou pelo menos ideias que venham antes dos números e dos desenhos: ideias coletivas.

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Este post foi escrito por Caio Esteves. Caio é arquiteto e urbanista, pós- graduado em branding. Fundador da Places for Us, primeira empresa especializada em Place Branding do Brasil.

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